COMIDA E CRENÇAS LIMITANTES: COMO AS EXPERIÊNCIAS DO PASSADO PODEM AFETAR A NOSSA ALIMENTAÇÃO

Por Ana Paula Soares

Nutricionista, Especialista em Saúde da Família, Terapeuta de ThetaHealing, Terapeuta Ayurveda

IG: @mosaicodanutri

E-mail: mosaicodanutri@gmail.com


O que pensamos e o que sentimos a respeito da comida afetam nosso comportamento alimentar. Como seres humanos dotados de consciência, temos a capacidade de criar sentido para as experiências com a comida e a partir delas construir referências e um conjunto de crenças e valores que pautam a forma como nos alimentamos. Algumas crenças são fortalecedoras e nos impulsionam a lidar com desafios cotidianos com flexibilidade e autonomia, já outras, são limitantes, na medida em que geram sofrimento e rigidez. Como as crenças podem ser conscientes ou subconscientes, nem sempre há clareza das forças internas que são mobilizadas na decisão do quê, quando e quanto comer ou deixar de comer. As crenças não conscientes são consideradas irracionais ou subconscientes.


As crenças são, em sua maioria, desenvolvidas na infância e têm origem nas relações com nossa personalidade, desenvolvimento, contexto social e cultural. Azevedo e Lemos (2018) trazem que as crenças podem ter origens diversas e estarem vinculadas a estruturas também distintas.



“Mesmo uma crença de origem irracional pode perfeitamente ser acolhida e mantida culturalmente por milhares de anos, como foi o caso da crença iniciada “cientificamente” por Ptolomeu, no século II d.C., de que a terra era o centro do universo e o sol girava em torno dela. Mesmo no campo clínico, as crenças exercem forte influência sobre os indivíduos, tornando-se forças propulsoras de cura ou de morte, causando ora bem-estar, ora desconforto psíquico, chegando ao desenvolvimento patológico. Se as crenças irracionais não forem descobertas e abandonadas, os pacientes muito provavelmente continuarão mantendo-as e desenvolvendo variações irracionais” (MATTA; BIZARRO; REPPOLD, 2009, p. 72).

Uma boa analogia seria entender as crenças como a raiz de uma árvore e os comportamentos como os frutos. Daí a importância de incluir o trabalho com as crenças irracionais ou limitantes em um processo de mudança do comportamento alimentar.


O objetivo do trabalho com as crenças limitantes no contexto do acompanhamento nutricional é produzir entendimento, ou seja, trazer a luz da consciência, os pensamentos, os sistemas de significados, as emoções e os comportamentos associados a práticas alimentares prejudiciais (comer transtornado, resistência a ressensibilização aos sinais de fome e saciedade, comer emocional disfuncional, entre outros) e reestruturar essas crenças alinhada aos sistema de valores conscientes do cliente.


Esse processo é feito com a identificação dos gatilhos que despertam os pensamentos disfuncionais e usar o questionamento socrático como um meio de guiar o cliente em uma reflexão consciente que permitirá que este tenha um insight sobre seu pensamento baseado em crenças limitantes.


As crenças podem ainda ser intermediárias e centrais. As crenças intermediárias se derivam das crenças centrais e são divididas em três categorias: baseadas em regras auto impostas (“eu devo comer apenas o essencial para matar a fome), atitudes (“eu preciso evitar chocolate para ser magra”) e suposições (“se eu estiver acima do peso ninguém vai gostar de mim”).


Já as crenças centrais são o nível mais fundamental de crenças, são rígidas, super generalizadas e geralmente desenvolvidas na infância, a partir da interpretação do que foi vivido. Elas se encaixam em duas categorias: associadas ao desamparo e ao fato de não ser amado. Essas crenças podem aparecer a partir de afirmações como: “sou ineficiente, carente, incompetente, fracassado, não sou bom o suficiente (referindo-se ao desamparo) ou “não sou atraente, ninguém me quer, ninguém liga pra mim, não tenho valor, não sou bom o suficiente (“referindo-se ao fato de não ser amado).



Na prática profissional aliando o acompanhamento nutricional ao trabalho com as crenças limitantes, as associações comumente observadas são:


  1. A manutenção de práticas alimentares disfuncionais a fim de pertencer a um grupo (familiar, amigos, colegas de trabalho) e assim se sentir amado;

  2. Manutenção de práticas alimentares restritivas, a fim de alcançar uma forma corporal aceitável socialmente como resposta a experiências com bullying na infância;

  3. Associação da comida a segurança e proteção com a busca da ingestão de alimentos para compensar sentimentos difíceis como medo e ansiedade e não como resposta aos sinais de fome e saciedade.


O entendimento dos padrões de crenças limitantes permite a construção de um novo significado aos padrões equivocados de pensamentos. E a comida, que antes ocupava o lugar de acalmar, distrair, punir, anestesiar como expressão de crenças limitantes, pode aos poucos ocupar seu lugar de trazer nutrição, identidade, afeto de forma mais saudável, harmoniosa e equilibrada.


Para finalizar tomo como referência, Neufeeld (2010): “as mudanças emocionais e comportamentais serão duradouras se resultarem da modificação de crenças disfuncionais básicas dos clientes”.


E se você deseja transformar a sua relação com a comida e gosta de leitura não deixe de conhecer o meu Clube do Livro Terapêutico e as próximas edições que acontecerão nos meses de Outubro e Novembro. Maiores informações pelo e-mail: mosaicodanutri@gmail.com ou no perfil do instagram clique aqui


Referências:


ALVARENGA, M.; ANTONACCIO, C.; TIMERMAN, F.; FIGUEIREDO, M. Nutrição Comportamental. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2015. 549p.


AZEVEDO, Gilson Xavier de; LEMOS, Carolina Teles. O sistema de crenças: aspectos qualitativos. Rev Estudos de Religião, São Paulo, v. 32, n. 3, p. 51-67, set/dez. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.15603/2176-1078/er.v32n3p51-67

MATTA, Adriana da; BIZARRO, Lisiane; REPPOLD, Caroline Tozzi. Crenças irracionais, ajustamento psicológico e satisfação de vida em estudantes universitários. PsicoUSF, Itatiba, v. 14, n. 1, p. 71-81, abr. 2009. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712009000100008&lng=pt&nrm=iso


NEUFELD, Carmem Beatriz; CAVENAGE, Carla Cristina. Conceitualização cognitiva de caso: uma proposta de sistematização a partir da prática clínica e da formação de terapeutas cognitivo-comportamentais. Rev. bras. ter. cogn., Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, p. 3-36, dez. 2010. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872010000200002&lng=pt&nrm=iso


REZENDE, F. A. C.; PENAFORTE, F. R. O; MARTINS, P. C. Comida, corpo e comportamento humano. São Paulo: IACI Editora, 2020. 238p.


138 visualizações0 comentário