CONTEXTOS AMBIENTAIS RELACIONADOS AO COMPORTAMENTO ALIMENTAR E A EPIDEMIA DE OBESIDADE

Por Lúcia Helena A. Gratão e Larissa Loures Mendes

IG: @nutriluciagratao e @geppaasufmg

Email: luciagratao@gmail.com


A obesidade é uma doença crônica multifatorial que cresce em proporções epidêmicas. Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) sinalizou um número de 650 milhões de pessoas com obesidade, representando aproximadamente 13% da população mundial. No Brasil, a prevalência alcança 16,8% dos homens e 24,4% das mulheres. Com esses percentuais, é evidente que essa epidemia sobrecarrega os sistemas de saúde, principalmente os de países em desenvolvimento, levando a gastos imensos. No Brasil em 2018, foram gastos pelo Sistema Único de Saúde, cerca de 90 milhões de dólares exclusivamente para o tratamento da obesidade, e cerca de 800 milhões de dólares com tratamentos para hipertensão arterial e diabetes mellitus, doenças estas que estão diretamente associadas ao excesso de peso.


Dessa forma, governos e outras organizações incentivam pesquisas nos mais diversos campos de conhecimento, na tentativa de encontrar soluções viáveis para o controle da epidemia. No entanto, apesar disso e do número cada vez maior de pesquisas e publicações relacionadas direta ou indiretamente com este tema, a obesidade ainda se mantém em franca ascensão. Fato é, que já estão bem elucidadas as principais causas da obesidade!! Porém, muitas vezes, a solução dessas causas impacta diretamente em acordos e parcerias convenientes para as grandes empresas e os governos.


Dentre as causas da obesidade, temos o excesso de ingestão de alimentos ultraprocessados (AUP) – produtos alimentícios produzidos com ingredientes industriais e com pouco ou quase nenhum alimento in natura ou minimamente processado e geralmente, são ricos em calorias, açúcares, sódio e gorduras; idealizados para que a cor, o sabor, a textura e a experiência de comê-los aumentem as chances de compra e consumo.



Observando superficialmente as informações anteriores, temos que a ingestão excessiva de AUP leva o indivíduo a ter maior chance de desenvolver obesidade, logo, superficialmente, a solução do problema seria O INDIVÍDUO não os consumir e dar preferência para alimentos in natura e minimamente processados, correto?! Não necessariamente! Isso porque a escolha dos alimentos para consumo está relacionada, além de fatores de nível individual, com o contexto ambiental, que geralmente não é de governança pelo indivíduo.


Os contextos ambientais relacionados a comportamentos alimentares incluem ambientes sociais, físicos e macroambiente. O ambiente social inclui interações com a família, amigos e outros membros da comunidade. O ambiente físico inclui os múltiplos ambientes onde as pessoas comem ou adquirem alimentos, tais como a casa, o trabalho, a escola, os restaurantes e os supermercados, e influenciam em quais alimentos estão disponíveis para comer, o que pode facilitar ou dificultar as escolhas alimentares saudáveis. Por último, os macroambientes atuam indiretamente, porém exercem papel substancial e de influência sobre o que as pessoas comem. Esses ambientes incluem a comercialização de alimentos, políticas públicas, sistemas de produção/distribuição de alimentos e estruturas econômicas. Todos esses ambientes interagem, tanto direta como indiretamente, e impactam no comportamento alimentar das pessoas.



Portanto, é injusto e reducionista afirmar que as escolhas alimentares e a ingestão dos alimentos são apenas de responsabilidade do indivíduo! Para que as pessoas tenham condições de realizar escolhas saudáveis é necessário que haja um contexto ambiental alimentar que as possibilite. E pelo contrário, temos enfrentado aumento dos preços e falta de incentivos para a produção e escoamento de alimentos in natura e minimamente processados, associado a redução dos preços e incentivos a grandes indústrias de AUP. Além disso, no Brasil e em outros países, há discussões periódicas entre organizações e o poder público para implementação de regulamentações que controlem a venda desses alimentos em escolas ou para que os rótulos sejam modificados a fim de que o consumidor saiba claramente o conteúdo do produto e as implicações da ingestão excessiva de AUP. Logo, apesar de sabermos as causas da obesidade hoje, não se tem avançado muito em soluções no macroambiente. Enquanto isso, os indivíduos carregam a culpa de serem a causa de algo que eles jamais conseguiriam controlar.


Caso tenha gostado deste conteúdo, te convido a conhecer o Grupo de Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde (GEPPAAS) e a visitar nossa rede social no @geppaasufmg.


Referências utilizadas para a redação:


Nilson, EAF. et al. Custos atribuíveis a obesidade, hipertensão e diabetes no Sistema Único de Saúde, Brasil, 2018. Rev Panam Salud Publica, v. 44, n. 8 Maio 2020. Disponível em: https://doi.org/10.26633/RPSP.2020.32


Story et al. Creating Healthy Food and Eating Environments: Policy and Environmental Approaches. Annual Review of Public Health, v. 29, n.1, p. 253-72. Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev.publhealth.29.020907.090926

WHO. Obesity. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/obesity#tab=tab_1