OS NOVOS PROTOCOLOS DE USO DO GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA

Por Fabiane Rezende

Nutricionista. Mestre e Doutora em Ciência da Nutrição.

Instrutora de Mindful Eating para Promoção da Saúde.

Fundadora do Portal E-Nutrirmente e Idealizadora do CONBRACAS

E-mail: nutrifabianerezende@gmail.com



O intuito deste texto é falar de um assunto que interessa muito a acadêmicos de nutrição, nutricionistas e outros profissionais que atuam no contexto da alimentação. Em janeiro deste ano, foram publicados pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Nupens/USP e com a Organização Pan-Americana da Saúde, os Protocolos de uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na orientação alimentar. Além de contribuírem para a qualificação profissional de quem atua na Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único de Saúde (SUS), estes documentos visam apoiar a disseminação das recomendações para uma alimentação adequada e saudável para a população brasileira.

“Hoje, sabemos que a má alimentação lidera o ranking dos fatores de risco relacionados à carga global de doenças no mundo, sendo o que mais contribui para mortalidade e o segundo fator que mais contribuiu para os anos de vida perdidos. A melhoria nas condições de alimentação da população poderia prevenir uma em cada cinco mortes no mundo.


E antes de falar especificamente dos protocolos do uso do Guia Alimentar, vamos explorar um pouco do perfil de consumo alimentar da população brasileira divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020 a partir da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada entre 11 de julho de 2017 e 9 de julho de 2018. A POF fornece periodicamente dados da disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil possibilitando análises de tendências e comparações internacionais e estimativas de consumo que geram a identificação de padrões e mudanças temporais na alimentação da população brasileira. E foram os dados da POF 2017-2018 que apoiaram a elaboração dos protocolos que vamos descrever melhor adiante.


Na POF 2017-2018 realizou-se avaliação do consumo alimentar com base na classificação NOVA, empregada no Guia Alimentar para a População Brasileira que compreende quatro grupos: 1) alimentos in natura ou minimamente processados, 2) ingredientes culinários processados, 3) alimentos processados e 4) alimentos ultraprocessados.


Os resultados apontaram que os alimentos com maiores médias de consumo diário per capita foram o café, feijão, arroz , sucos e refrigerantes, ressaltando a presença de três tipos de bebidas que normalmente são adicionadas de açúcar para seu consumo. Quanto ao consumo dos alimentos segundo o grau de processamento, verificou-se que do total de calorias consumidas, os alimentos ultraprocessados representaram 19,5% em adultos e 15,1% em idosos. Para os subgrupos de in natura ou minimamente processados o consumo foi maior em idosos: frutas (2,9% em adultos e 5,0% em idosos), leite (2,4% em adultos e 4,4% em idosos), verduras e legumes (1,9% em adultos e 2,2% em idosos).


Importante reforçar que os dados foram obtidos em uma época em que não vivíamos ainda a Pandemia de COVID-19 e não sofríamos com seus desdobramentos nos contextos político/econômico e biopsicossocial. Atualmente o cenário se modificou bastante com repercussões negativas tanto na quantidade e qualidade do consumo alimentar, bem como do comportamento alimentar, como alguns estudos já têm apontado. Malta et al. (2020), por exemplo, identificaram que “os brasileiros passaram a praticar menos atividade física, aumentaram o tempo dedicado às telas (TV, tablet e/ou computador), reduziram o consumo de alimentos saudáveis e aumentaram o de ultraprocessados, como também o consumo de cigarros e de álcool, em decorrência das restrições sociais impostas pela pandemia.”


Assim, o panorama atual no âmbito da alimentação e nutrição reforça ainda mais a necessidade de atuação das equipes de saúde, bem como, dos atores que atuam diretamente e indiretamente na implementação das políticas públicas de alimentação e nutrição, sem perder de vista a necessidade de ações que visem a segurança alimentar e nutricional da população. Em um cenário como esse, podemos considerar que os protocolos contribuem para a qualificação profissional e para melhorias no processo de atenção nutricional das pessoas.



Os protocolos consideram o contexto do cuidado individual oferecido na Atenção Primária à Saúde, visando oferecer apoio à prática clínica e destinam-se a profissionais de nível superior no âmbito do atendimento clínico individual. Ao todo são cinco fascículos destinados ao uso do Guia Alimentar para pessoas adultas, pessoas idosas, gestantes, crianças e adolescentes. Aqui vamos falar aqui sobre os dois primeiros que foram disponibilizados e que são destinados a pessoas adultas e idosas. Em ambos os casos, os protocolos estão estruturados em tópicos, começando por orientações sobre como utilizar o protocolo, seguido de seis recomendações e ao final são contempladas orientações adicionais e a valorização da prática alimentar.


Recomendação 1 - Estimule o consumo diário de feijão no almoço e no jantar

Recomendação 2 - Oriente que se evite o consumo de bebidas adoçadas

Recomendação 3 - Oriente que se evite o consumo de alimentos ultraprocessados

Recomendação 4 - Oriente o consumo diário de legumes e verduras

Recomendação 5 - Oriente o consumo diário de frutas

Recomendação 6 - Oriente que o usuário coma em ambientes apropriados e com atenção


O protocolo prevê como ponto de partida para seleção das recomendações o uso do Questionário de Marcadores de Consumo Alimentar utilizado pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional - SISVAN (BRASIL, 2015). Ele contempla marcadores de alimentação saudável (alimentos in natura ou minimamente processados consumidos per si ou em preparações culinárias) e não-saudável (todos alimentos ultraprocessados), e também o uso de telas durante a realização das refeições como sendo um marcador de modo de comer inadequado, relacionado tanto à qualidade quanto à quantidade.



A partir de um fluxograma é possível definir as prioridades de orientação para cada caso e encontrar as recomendações que poderão ser empregadas na consulta. Cada recomendação vem acompanhada de uma justificativa e de sugestões de como lidar com possíveis obstáculos para a mudança do consumo/comportamento alimentar e estratégias para superá-las. Adicionalmente, são fornecidas outras orientações que consideram aspectos como técnica de preparo e armazenamento, habilidades culinárias, local de realização das refeições (dentro ou fora do domicílio), informações nutricionais, comportamento e ambiente alimentar.


"Você sabia que pessoas idosas fazem parte do grupo de vulnerabilidade social e merecem atenção especial no que diz respeito à rede de apoio?"