ABORDAGEM COMPORTAMENTAL EM NUTRIÇÃO: O QUE É ISSO?

Atualizado: Ago 13

Por Fabiane Rezende

Nutricionista. Mestre e Doutora em Ciência da Nutrição.

Instrutora de Mindful Eating para Promoção da Saúde.

Fundadora do Portal E-Nutrirmente e Idealizadora do CONBRACAS

E-mail: nutrifabianerezende@gmail.com



Em tempos de crescente incidência de obesidade, doenças crônicas e transtornos alimentares as ações no âmbito do alimentação e nutrição têm sido cada vez mais enaltecidas como fundamentais para o “controle” destes agravos. Crescem os debates e investigações científicas para se chegar a algum consenso acerca das melhores estratégias de prevenção e tratamento por meio do cuidado nutricional e nesse contexto a abordagem comportamental em nutrição tem sido amplamente difundida sob a ótica de que melhorias no comportamento alimentar contribuem significativamente para melhores condições de saúde, bem-estar e qualidade de vida.

De fato, há muitas evidências sinalizando desfechos positivos para a saúde associados a diferentes abordagens comportamentais em nutrição. E antes de falar um pouco mais sobre estas abordagens, é importante contextualizar porque neste momento o comportamento alimentar tem sido considerado tão relevante para então ampliarmos a visão do cuidado nutricional.

Ao tratar da alimentação, do corpo e da relação do sujeito com ambos devemos em primeiro momento compreender que estamos falando uma questão complexa que possui uma gama enorme de determinantes que vai muito além das questões biológicas e do âmbito individual. Fatores políticos, econômicos, ambientais, sociais, culturais, midiáticos, cognitivos, afetivos e comportamentais interagem diretamente ou indiretamente entre si e com o indivíduo repercutindo na relação que estabelecemos com a comida e com o corpo. Desde a concepção, o indivíduo passa por transformações em seu desenvolvimento físico, psíquico e social e sua trajetória de vida é marcada por experiências e aprendizados que vão resultando em atitudes e hábitos alimentares.

O comportamento alimentar em si diz respeito às formas com que um indivíduo reage diante do contexto e ambiente alimentar. As ações dirigidas à alimentação resultam de interações entre fatores intrínsecos e extrínsecos da pessoa, sendo estas ações decorrentes de aspectos que antecedem a ação em si e das consequências das mesmas. A cognição (o que se pensa) e a emoção (o que se sente) estão intimamente ligadas aos comportamentos e é desta interação que surgem as atitudes alimentares.


As disfunções do comportamento alimentar podem estar presentes no comer transtornado ou até mesmo nos quadros de transtorno alimentar dependendo da intensidade e da frequência com que ocorrem e englobam, por exemplo, a prática de dietas restritivas, episódios de compulsão alimentar, uso de métodos inadequados para promover a perda de peso ou a compensação do comer em excesso. Além disso, a pressão estética e o culto ao corpo magro, os discursos frequentes acerca da patologização e estigma da obesidade e o terrorismo nutricional em torno das doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, também contribuem para o surgimento de relações conflituosas e disfuncionais na alimentação. Neste sentido, gatilhos mentais ou emocionais podem afetar o comportamento alimentar e merecem investigação durante o acompanhamento.

No âmbito do cuidado nutricional, ao incluir a abordagem comportamental em um processo terapêutico pretende-se investigar e compreender o comportamento alimentar em si, bem como, identificar as condições ou situações (estímulos) que desencadeiam um ou mais comportamentos alimentares disfuncionais e suas consequências para a saúde física e emocional da pessoa. Ao reconhecer e validar esses comportamentos e seus gatilhos é possível construir junto com a pessoa um plano de ação o processo de mudança. E cabe aqui ressaltar que a construção de novas atitudes alimentares deve levar em conta não apenas o comportamento alimentar, mas também os aspectos cognitivos e afetivos. Portanto, a abordagem comportamental é parte do processo do cuidado nutricional e soma-se a outras abordagens afim de promover o autoconhecimento, o autocuidado e a autonomia alimentar.

A abordagem comportamental pode ser empregada na prática clínica a partir de uma ou mais linhas teóricas com suas respectivas estratégias e recursos terapêuticos afim de promover mudanças no comportamento alimentar. E trazendo o alvo destas mudanças para a promoção da autonomia alimentar é fundamental que o ponto de partida do processo, independente da linha teórica seguida, seja o acolhimento, o estabelecimento do vínculo entre terapeuta e cliente/paciente e a escuta ativa e empática. A horizontalidade e assertividade da comunicação, o respeito à subjetividade e liberdade do cliente/paciente e o seu protagonismo é essencial para que o plano de ação seja construído, pactuado e redesenhado por ambos ao longo de todo o acompanhamento considerando sempre o contexto de vida.

Ao buscar a definição de uma determinada linha teórica para a abordagem comportamental é importante que o nutricionista reflita e avalie a necessidade de treinamento e desenvolvimento de habilidades e competências para o emprego da mesma. Honrar a pessoa que está sendo atendida e respeitar a sua história é primordial para apoia-la como facilitador das mudanças e mediador das tomadas de decisões. Permitir que a narrativa do cliente/paciente flua sem interrupções até que se note saturação dos elementos na fala e adotar uma postura neutra, livre de julgamentos, evitando sugerir ou apresentar soluções prontas para os problemas é desafiante, porém primordial. O resgate da autonomia alimentar requer que a pessoa cultive a sabedoria interna e externa sobre comida e corpo a partir de uma postura crítica e reflexiva sobre si e seu mundo.

Questionamentos e perguntas norteadoras de forma mais ampla sobre a relação com a comida e com o corpo servem como ponto de partida para identificar as necessidades e motivações da pessoa e a partir disso escolher a linha teórica da abordagem comportamental mais apropriada ao caso, sendo que o plano terapêutico pode contemplar uma, duas ou mais abordagens conforme demandas que surgem no acompanhamento. É importante que o terapeuta nutricional tenha clareza dos objetivos do tratamento e os indicadores que utilizará para checar a evolução e resultados do processo.

Entre as abordagens comportamentais com foco específico na alimentação estão a Autobiografia Alimentar, o Modelo de Competências Alimentares, o Aconselhamento Nutricional, o Intuitive Eating (comer intuitivo) e o Mindul Eating (comer consciente). Outras abordagens comportamentais que também podem ser aplicadas ao contexto da nutrição são a entrevista motivacional, o modelo transteórico, e a terapia cognitivo-comportamental. Por meio destas abordagens pretende-se: conhecer a história alimentar do indivíduo; investigar possíveis traumas e crenças relacionadas à alimentação e ao corpo; aumentar a motivação intrínseca do indivíduo e apoiar na resolução de ambivalências; reconhecer e melhorar as percepções de fome e saciedade; reconhecer os diferentes tipos de fome; comer com prazer e sem culpa; promover escolhas alimentares mais conscientes; ampliar o repertório alimentar e qualidade nutricional da alimentação; entre outros.

Além dessas, uma outra abordagem relativamente recente que contempla estratégias para mudanças do comportamento alimentar é a abordagem HAES – Healthy at Every Size (Saúde em todos os tamanhos) que é multidisciplinar e traz o foco da promoção de comportamentos de saúde para pessoas de todos os tamanhos, sem utilizar o peso corporal como mediador ou indicador das melhorais de saúde. A proposta de mudança de foco para resultados com peso neutro nesta abordagem tem demonstrados por meio de ensaios clínicos controlados randomizados melhorias estatisticamente e clinicamente relevantes em medidas fisiológicas (pressão arterial e lipídios no sangue, por exemplo), comportamentos de saúde (melhorias em hábitos alimentares, qualidade da dieta e prática de atividade física) e resultados psicossociais (como melhora nos níveis de autoestima e de autopercepção da imagem corporal).

HAES tem sido apoiada por diversas organizações internacionais envolvidas com o tema Transtornos Alimentares, como por exemplo: The Academy for Eating Disorders, Binge Eating Disorder Association, Eating Disorder Coalition, International Association for Eating Disorder Professionals e National Eating Disorder Association.

Se você gostou do tema e tem interesse em saber mais, acesse outros materiais e cursos disponíveis no Portal E-nutrirmente. Siga também nosso perfil e do CONBRACAS no Instagram para ficar por dentro de debates e conteúdos relacionados ao comportamento alimentar. O livro Comida, Corpo e Comportamento foi lançado em abril deste ano e reúne capítulos sobre diferentes abordagens com a colaboração de profissionais que são importantes referências na área. Conheça o sumário do livro e adquira clicando AQUI.


Bibliografia sugerida:

Alvarenga, M.; Antonaccio, C.; Timerman, F.; Figueiredo, M. Nutrição Comportamental. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2015. 549p.

Bacon, L.; Aphramor, L. Weight Science: Evaluating the Evidence for a Paradigm Shift. Nutrition Journal, v. 10, n. 9, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1186/1475-2891-10-9

Garcia, R. W. D. Representações sociais da alimentação e saúde e suas repercussões no comportamento alimentar. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 1997, n.2, p. 51-68.

Kristeller, J. L.; Wolever, R. Q. Mindfulness-Based Eating Awareness Training for Treating Binge Eating Disorder: The Conceptual Foundation. Eating Disorders, v. 19, n.1, p. 49-61, 2010

Petry, N.; Bedeschi, L. B. Em paz com a comida: um livro de exercícios para que você deixe de fazer dieta e viva em paz com os alimentos e com seu corpo. 2. ed. Belo Horizonte: IACI Editora, 2018. v. 1. 240p.

Rezende, F. A. C.; Penaforte, F. R. O.; Martins, P. C. Comida, Corpo e Comportamento Humano. São Paulo: IACI Editora, 2020. 238p.

Tribole, E.; Resch, E. Intuitive Eating: A Revolutionary Program That Works. New York: St. Martin’s Griffin, 2012.

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