O GUIA ALIMENTAR COMO DIRETRIZ UNIVERSAL PARA AS PRÁTICAS DE ALIMENTAÇÃO NA ABORDAGEM COMPORTAMENTAL

Por Bianca Dias Ferreira e Jenifer Oliveira

E-mail:nutribiancadias@gmail.com e jennynutri4@gmail.com

Instagram: @biancadiasfer e @jeni_nutressencia


Abordar o tema comportamento alimentar, em geral, remete à muitas questões como: o quê, como, quando, quanto, com quem, com o que, onde, porque e para que comemos. Em um dia corriqueiro de nossas vidas fazemos incontáveis escolhas alimentares, seja de forma habitual, desatenta ou consciente, e, é importante considerar ainda, que cada país e suas regiões possuem uma cultura alimentar que define o que pode ou não ser visto como comida.


Nesse sentido, em face às diversas dimensões que permeiam o ato de se alimentar e, da complexa relação entre essas e a saúde e o bem-estar das pessoas, discutiremos aqui o papel dos guias alimentares como documento diretriz para as escolhas de alimentação mais assertivas em um dado país, acompanhando também as mudanças na sociedade e no conhecimento sobre alimentação e nutrição. No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira cumpre com essa finalidade e é a base de informação segura e confiável para o nosso povo.



Confira o documento na íntegra em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf


O Guia Alimentar para a População Brasileira se constitui em uma das estratégias do Ministério da Saúde para implementação da diretriz de promoção da alimentação adequada e saudável que integra a Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Essa, por sua vez, tem a missão de legitimar o dever do Estado em garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável e, consequentemente a Soberania e a Segurança Alimentar e Nutricional da população.


“A alimentação adequada e saudável é um direito humano básico que envolve a garantia ao acesso permanente e regular, de forma socialmente justa, a uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos e sociais do indivíduo e que deve estar em acordo com as necessidades alimentares especiais; ser referenciada pela cultura alimentar e pelas dimensões de gênero, raça e etnia; acessível do ponto de vista físico e financeiro; harmônica em quantidade e qualidade, atendendo aos princípios da variedade, equilíbrio, moderação e prazer; e baseada em práticas produtivas adequadas e sustentáveis”.

Para saber mais sobre a PNAN acesse http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_alimentacao_nutricao.pdf .


Assim, o Guia Alimentar para a População Brasileira é um instrumento de apoio e incentivo a práticas alimentares adequadas e saudáveis no âmbito individual e coletivo e serve para subsidiar políticas, programas e ações que visem a incentivar, apoiar, proteger e promover a saúde e a segurança alimentar e nutricional da população. Te convidamos a conhecê-lo mais profundamente!


Nosso primeiro Guia Alimentar foi publicado em 2006, apresentando as primeiras diretrizes alimentares oficiais para os brasileiros, com capítulos direcionados aos grupos de alimentos e sua composição química e trazendo informações de forma positiva e diretiva. A segunda edição passou por uma revisão de suas bases, buscando dar ênfase maior ao alimento do que ao nutriente, tendo sido aberto processo de consulta pública, que possibilitou amplo debate entre diversos setores da sociedade. Essa atual versão foi publicada em 2014, considerando as mudanças nos hábitos alimentares e as transformações sociais que impactaram nas condições de saúde e nutrição da população brasileira, assim como o progresso no conhecimento científico.


Desde então, o nosso Guia Alimentar foi considerado inovador, pois defende a ampliação da autonomia das pessoas nas escolhas alimentares e não classifica mais os alimentos de forma dicotômica como saudáveis e não saudáveis, bons e ruins. Ele utiliza como importante referência a classificação NOVA , que consiste na identificação dos alimentos conforme o grau de processamento e orienta que as escolhas alimentares sejam baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados e que seja limitado o consumo de processados e evitado o consumo de ultraprocessados.


Um outro aspecto importante sobre o guia alimentar brasileiro é a valorização da cultura alimentar, levando em conta os alimentos consumidos em cada uma das regiões do país, no meio urbano e rural. Além disso, nas recomendações alimentares, o Guia Alimentar considera a interdependência entre alimentação adequada e saudável e a sustentabilidade. Há ainda o incentivo à comer com regularidade e atenção, se possível em companhia e o estímulo também a que população retorne ao hábito de cozinhar, planejar as refeições e fazer compras em locais que oferecem variedades de alimentos in natura ou minimamente processados.



É importante evidenciar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe que os governos forneçam informações à população para facilitar a adoção de escolhas alimentares mais saudáveis em uma linguagem que seja compreendida por todas as pessoas e que leve em conta a cultura local. Assim, em tempos de acesso ilimitado a informações em qualquer meio de comunicação, é preciso garantir o direito da população à informação de qualidade, livre de conflitos de interesses comerciais e privados, baseada em evidências científicas e comprometida com o direito à saúde, à alimentação e à vida. Neste sentido, o Guia Alimentar é uma excelente ferramenta que, quando devidamente utilizado, pode contribuir para reflexão e mudança dos padrões de alimentação e nutrição em nível individual e coletivo e contribuir para a promoção da saúde.


Na abordagem comportamental da alimentação, em que se prioriza a integração gradual e consciente entre mente, corpo e coração nas decisões de alimentação, esse material ganha uma relevância ainda maior. A priorização do alimento ao invés do nutriente, colabora para que as pessoas entendam a alimentação dentro de um contexto de mais naturalidade, acessando sua origem e interdependência com toda a cadeia sociocultural de produção.


Se comemos comida, este pode e deve ser nosso ponto de partida para um diálogo de compreensão e apoio ao ser humano que nos procura para assistência. E essa comida contextualizada nas refeições de acordo com os alimentos regionais, utilizando imagens ilustrativas, conforme apresentado no Guia Alimentar Brasileiro, torna-se um recurso útil inclusive em situações de pouca escolaridade.


Outro grande ganho é quanto ao incentivo às práticas culinárias e sua perpetuação entre as gerações, fomentando o processo de transmissão de habilidades culinárias, o que vem perdendo força especialmente entre as pessoas mais jovens. Isto se reflete em menos confiança e autonomia para preparar alimentos, o que é um desafio, uma vez que este tema é universal e pode ser ensinado/aprendido por qualquer pessoa, seja ou não profissional de saúde. Por fim, mais um tema universal e emergente da atualidade é a sustentabilidade de nossas práticas, ponto em que o guia nos fornece uma base para abordar o tema de forma leve, prática e procurando minimizar o impacto econômico no orçamento das pessoas, aspecto muito importante a se considerar no contexto de mudanças de comportamento.


Por esses e outros motivos, nosso guia é considerado referência internacional, tendo inspirado a reformulação de diversos outros guias no mundo, tais como Canadá e França. Essa valorização do documento ocorreu especialmente por tocar na questão do grau de processamento industrial dos alimentos, tema que atinge todos os países do mundo devido à crescente popularização e aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, a tendência de aumento do tamanho das porções de tais alimentos e os impactos prejudiciais a saúde destes cada vez mais reforçados em pesquisas científicas de alto nível de evidência.


Assim sendo, nós autoras acreditamos na potência do Guia Alimentar para a População Brasileira, em sua segunda edição, no incentivo de boas escolhas alimentares ao possuir amplo embasamento científico, ser gratuito, de fácil acesso, leitura e compreensão, sendo uma fonte de informação indispensável para todos nós nutricionistas, estudantes da área da nutrição e demais profissionais de saúde. Além de ser um importante instrumento de apoio às ações de educação alimentar e nutricional no SUS e outros setores.


Então, fica o convite: se você não o conhece procure conhecê-lo e se você leu e encontrou nele importância valorize-o e o defenda!


Bibliografia sugerida:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 156 p.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Alimentação e Nutrição / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.Básica. – 1. ed., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 84 p.

ANDRADE, L.M; BOCCA, C. Análise comparativa de guias alimentares: proximidades e distinções entre três países. Demetra: alimentação, nutrição e saúde. 2016. v. 11, n. 4, p.1001-1016.


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