O CAMINHO DA AUTONOMIA ALIMENTAR NA CONSTRUÇÃO DAS PRÁTICAS ALIMENTARES SAUDÁVEIS

Por Jaciara Dias Barreto

Nutricionista com abordagem comportamental e sem dieta

Especialista em Saúde da Família

Instrutora em formação de Mindful Eating para a Saúde pelo CPM - Centro de Promoção de Mindfulness.

e-mail: jacidias@hotmail.com

Instagram: @nutrindocomer


A alimentação humana é complexa, permeada por símbolos culturais, sociais, políticos, afetivos e religiosos, determinada pelas escolhas alimentares, as quais são influenciadas por fatores individuais (crenças, pensamentos, sentimentos, comportamentos) e ambientais (fatores econômicos, sociais e culturais), resultando em atitudes alimentares. Já o ato de comer, além de satisfazer as necessidades biológicas, é também fonte de prazer, e envolve sentidos e sensações como gostos, texturas, cores, cheiros, recordações e emoções.


Fonte: www.pixabay.com.br


Atualmente o excesso de informações sobre alimentação, dietas da moda, restrições alimentares, alimentos mágico, proibidos e alimentos diet e light, têm contribuído para promover incertezas e estresse sobre o ato de comer, o que denominamos de terrorismo nutricional. Em meio a esse universo de informações, tem-se uma visão reducionista sobre o alimento, o qual é visto apenas como fonte de nutrientes isolados, desconsiderando a combinação única de substâncias que cada alimento tem, associada a seus valores culturais, sociais e simbólicos.


O direito das pessoas escolherem seus alimentos, de acordo com suas crenças, sentimentos, comportamentos, se traduz na autonomia alimentar. No entanto, a cultura de dieta contribui para a perda da autonomia. O ser humano nasce com uma sabedoria interna para regular a alimentação de acordo com as necessidades corporais, mas ao longo da vida o ato de comer segue regras alimentares impostas pela família, escola e profissionais de saúde, contribuindo para um distanciamento da capacidade interna do corpo.


Dessa forma, a promoção da autonomia alimentar é um desafio porque as pessoas estão acostumadas a conviver com regras externas sobre o quê, quanto e quando comer, além da grande oferta de alimentos, principalmente industrializados, que trazem a praticidade como um valor em uma sociedade do excesso de trabalho e alta produtividade.


O NUTRICIONISMO E A PERDA DA AUTONOMIA ALIMENTAR


Um dos princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde, afirma que a alimentação é mais que a ingestão de nutrientes e não se restringe apenas aos aspectos biológicos, tendo significados relacionados às dimensões sociais e culturais das práticas alimentares.


No entanto, o nutricionismo, termo cunhado pelo sociólogo Gyorgy Scrinis, reforça uma visão reducionista do alimento, onde a comida é vista apenas pelos nutrientes que possui, contribuindo para disseminação e consolidação de mitos como “o mais importante não é o alimento, mas sim o nutriente”; “o objetivo da alimentação é promover um conceito estrito de saúde física” e “como o nutriente é invisível e incompreensível para todas as pessoas, precisamos da ajuda de especialistas para saber o que comer”.


A redução do alimento ao nutriente desconsidera a combinação de nutrientes e outros compostos químicos que fazem parte da matriz alimentar, e isto, conforme demonstrado em vários estudos, mostra que os efeitos dos nutrientes isolados é insuficiente para explicar a relação entre alimentação e saúde. Nesse contexto, o nutricionismo vende a falsa ideia de que adicionando nutrientes a um produto, este se torna alimento.


Fonte: www.pixabay.com.br


Além disso, o interesse da indústria de alimentos confere a alguns alimentos e compostos bioativos o status de “superalimentos”, com alegações de benefícios à saúde, que nem sempre são comprovadas por pesquisas científicas confiáveis. Assim, a busca por soluções mágicas, rápidas e práticas encontra sentido no apelo da indústria de alimentos, que vende a ideia de saúde e felicidade associada a questões estéticas.


O nutricionismo e o terrorismo nutricional, portanto, não contribuem para a autonomia alimentar, por reforçar a visão restrita e dicotômica do saudável e não saudável, a moralização dos alimentos, que são classificados em “bons” e “ruins”, desconsiderando o prazer associado ao ato de comer e reforçando a culpa na relação estabelecida com os alimentos.


AS ABORDAGENS COMPORTAMENTAIS E O CAMINHO PARA AUTONOMIA ALIMENTAR


Considerando que o cuidado nutricional baseado em prescrições restritivas e padronizadas se traduz em controle e ausência de autonomia dos indivíduos sobre suas escolhas alimentares, podemos constatar que a abordagem tradicional da nutrição está pautada no controle alimentar, onde o profissional orienta o consumo de uma lista de alimentos, mesmo que a pessoa não os considere gostoso; em determinada quantidade, desconsiderando os sinais de fome e saciedade; e evitando alimentos específicos, mesmo que se tenha o desejo de comê-los. Essa abordagem está pautada em regras externas que devem ser seguidas sobre o quê, quanto e quando comer, com foco restrito no aspecto biológico do alimento e, considerando o comer somente como uma decisão racional, medicalizando-o.


Já o comportamento alimentar depende daquilo que conhecemos, acreditamos, pensamos e sentimos sobre o alimento. Portanto, a abordagem nutricional baseada na prescrição e controle, não contribui para mudanças no comportamento alimentar, as quais se relacionam com as atitudes alimentares, por desconsiderar que o papel do alimento na vida envolve aspectos fisiológicos, emocionais e sociais.


Cabe ressaltar que a relação disfuncional do comportamento alimentar, representada pelo ciclo vicioso das dietas, (que envolve a restrição alimentar, privação física e emocional, desejo do alimento proibido, exagero alimentar, culpa, ganho de peso e insatisfação corporal), resulta em risco aumentado de transtornos alimentares e ganho de peso. Logo, o caminho para construir práticas alimentares saudáveis é a autonomia alimentar. Nesse contexto, abordagens como o Aconselhamento Nutricional e o Mindful Eating (comer com atenção plena) são utilizadas no trabalho de compreensão e mudança do comportamento alimentar.


Você conhece essas abordagens? A seguir iremos tratar sobre cada uma delas.


O Aconselhamento Nutricional contribui para que a pessoa possa olhar para si mesma, encorajando-a a reconhecer os desejos e a escolher o que comer, sem restrições nem inclusões, mas lhe ajudando a encontrar os próprios limites. As suas principais características são a escuta, a ausência de julgamento e o apoio para as mudanças desejadas. Os questionamentos nessa abordagem não se limitam a analisar “o que” e “quanto” a pessoa come, mas principalmente o "porquê", “como”, “onde”, “em que situação” e, “o que sente” sobre o seu comer.


Ao se perguntar “Porque comemos o que comemos? A depender da compreensão que temos sobre o comer e suas relações, podemos restringir o alimento ao nutriente e considerar apenas os aspectos biológicos, ou ampliar e considerar os aspectos culturais, sociais e simbólicos. As respostas a essa pergunta falam sobre necessidades (“meu corpo precisa”), desejos (“eu sinto”), e a vontades (“eu quero”) em relação à alimentação, as quais, estando em desacordo, contribuem para adoção de um comportamento alimentar inadequado.


Já o Mindful Eating, que em português é traduzido como “Comer com atenção plena” ou “Comer consciente”, tem como base central o Mindfulness, e consiste na habilidade de trazer a atenção amorosa para todo o processo de comer, com intenção e sem julgamentos. Esta proposta contribui com o desenvolvimento de uma relação saudável com o corpo e a comida, através do resgate da sabedoria corporal, por meio de uma maior consciência dos sinais internos de fome e saciedade, cultivo de uma relação mais harmoniosa e pacífica com o corpo e a comida, sem julgamentos e autocrítica, contribuindo com o desenvolvimento de habilidades para lidar com o comer emocional e automático.


Dessa forma, as abordagens que trabalham com o comportamento alimentar e que buscam a integração entre corpo, mente e coração, são caminhos para promoção da consciência e autonomia alimentar.


Ao compreender a alimentação como uma experiência singular, com os seus múltiplos determinantes e representações, o caminho do cuidado alimentar envolve autoconhecimento, reconhecimento dos seus valores e necessidades; o cuidado de si e a autocompaixão. É uma jornada que envolve abertura, paciência, persistência e disposição para mergulhar na sua história de vida, percepções, desejos e crenças, pois como afirma Geneen Roth, autora do livro “Mulheres, Comida e Deus” a nossa relação com a comida é um microcosmo exato da nossa relação com a vida.


Se tudo que leu fez sentido para você, fica o convite para acessar outros materiais e conteúdos do Blog E-Nutrirmente que tem a finalidade de promover a aproximação e fortalecimento do cuidado integral em saúde. Venha conosco conectar-se para nutrir corpo, mente e coração.



Referências:


REZENDE, F. A. C.; Penaforte, F. R. O.; Martins, P. C. Comida, Corpo e Comportamento Humano. São Paulo: IACI Editora, 2020. 238p.


FREITAS, M.C.S., FONTES, G.A.V., and OLIVEIRA, N, orgs. Escritas e narrativas sobre alimentação e cultura [online]. Salvador: EDUFBA, 2008. 422 p. Disponível em SciELO Books < http://books.scielo.org/id/9q >.


ALVARENGA, M.; Antonaccio, C.; Timerman, F.; Figueiredo, M. Nutrição Comportamental. 2. ed. Barueri, SP: Manole, 2019. 595p.


VILLELA, M. C. E. AZEVEDO, E. Controle de Si e Cuidado de Si: uma reflexão sobre a ciência da nutrição. Demetra: Alimentação, Nutrição e Saúde. 2021.


MOTTA, D.G; MOTTA, C. G; FERRETTI, M. G. Aspectos Psicológicos do Aconselhamento Dietético. In: DIEZ-GARCIA, R.W; MANCUSO, A.M.C. Mudanças Alimentares e Educação Alimentar e Nutricional. RJ: Guanabara Koogan; 2017. 174-180.


POLLAN, M. Em defesa da comida: um manifesto. Editora Intrínseca Ltda.2008.


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