ALIMENTAÇÃO ADEQUADA: CONTRIBUIÇÕES DA SABEDORIA EXTERNA E INTERNA

Por Jenifer Oliveira & Bianca Dias Ferreira


Nutricionistas com abordagem comportamental, Especialistas em Saúde da Família.

E-mail: jennynutri4@gmail.com e nutribiancadias@gmail.com

Instagram: @jeni_nutressencia e @biancadiasfer



Comer é um ato que nos acompanha desde o nascimento, e por isso é algo considerado simples e natural… Mas será que isto é uma verdade absoluta? Trazemos a você que está lendo um convite à reflexão.


Todos sabemos como comer e beber são necessidades básicas, inerentes à sobrevivência. Porém, algumas de nossas particularidades humanas as tornam complexas, uma vez que dialogam com aspectos simbólicos sociais, culturais, religiosos, espirituais, filosóficos, afetivos, sexuais, entre tantas outras facetas da

nossa vida.


Há muito tempo, ao longo da história da humanidade, a alimentação é também vista como forma de cuidar da saúde e curar males do corpo e da mente, em especial no mundo oriental. Esse saber ancestral, advindo da experiência empírica de povos originários e das medicinas tradicionais orientais, passado de geração a geração, foi por bastante tempo rechaçado pela ciência ocidental, mas atualmente tem sido cada

vez mais estudado e incorporado a práticas validadas, a exemplo das práticas integrativas e complementares de saúde.


Além disso, temos os saberes do acesso à informação e ensinamentos ao longo da vida, assim, construímos hábitos e crenças em todas as áreas, inclusive na alimentação. Outras variáveis entram nessa tomada de decisão, como o sistema de produção e comercialização de alimentos, o contexto social da vida contemporânea, tais como se o alimento é produzido com ou sem agrotóxicos, transgênicos, aditivos,

se é ou não processado pela indústria alimentícia, etc. São tantas informações disponíveis que podem gerar preocupação excessiva, ou até mesmo nos fazer negligenciar apenas para não ter que pensar a respeito. Todos estes conhecimentos acumulados podemos chamar de sabedoria externa , uma grande parceira na hora de definir nossas escolhas alimentares.



No ocidente o conhecimento acerca dos alimentos e da sua relação com a saúde humana se constituiu de forma mais evidente a partir do surgimento da profissão nutricionista, que é relativamente recente. Com a evolução da ciência da nutrição e a descoberta do mundo misterioso dos macro e micronutrientes, entre outros componentes dos alimentos, tivemos muitos avanços, porém o alimento começou a

se delinear apenas como um agregado de nutrientes. Nesse contexto, escolher o que comer tornou-se uma decisão para profissionais, os quais tomaram para si a responsabilidade de decidir o que é melhor para a vida das pessoas.


É importante ressaltar que a nutrição clínica nasceu no hospital e tem como seu berço uma ramificação do saber médico, sendo essencialmente voltada para a fragmentação do cuidado, com foco na doença e, seu controle por meio de proibições e restrições. Com o passar do tempo, a abordagem voltada para a forma

física, performance e padrões de beleza foram ganhando destaque, assim como o valor calórico dos alimentos. Chamamos atenção aqui para a valorização dos nutrientes em detrimento da comida, da saúde e da doença em detrimento do prazer, convívio e socialização, e da razão em detrimento da cultura.


Podemos dizer que por muito tempo as ideias de controle e quantificação dominaram na conformação do paradigma da nutrição, refletindo-se na formação acadêmica. No entanto, tem surgido um movimento que busca integrar essas visões e direcionar o foco para o sujeito em si e suas necessidades do

corpo/mente/coração. Isto se deu, com o surgimento da nutrição comportamental e valorização da nutrição integrativa, sistêmica, entre outras que tem foco no indivíduo e suas singularidades. Estas propõem uma ênfase em aspectos pouco considerados na Nutrição e, que são tão fundamentais para se pensar sobre sua relação com a alimentação e a saúde, como o autoconhecimento, o resgate à

cultura, o prazer, a consciência e o autocuidado.


Diante disso, como responder ao nosso questionamento: será o comer algo natural? Em que medida? Afinal, como saber se temos uma alimentação saudável e/ou adequada? Pelos parâmetros da sabedoria externa?


Em um mundo globalizado, extremamente tecnológico, que supervaloriza o intelecto, estamos cada vez mais sendo estimulados a nos distanciarmos do corpo e com isso não ouvimos o que ele nos tem a dizer. O comer cada vez mais está influenciado por uma série de regras externas e condutas que em muitas situações ganham um teor moral e o não “comer limpo” um desvio dessa moral. Com tantas

informações e diferentes correntes de conhecimento, essa definição pode ficar confusa em nossa mente.


Mas, há uma parte do nosso ser que é mais difícil se enganar: o nosso corpo . Ele é uma fonte de informação inesgotável e exclusiva sobre o que faz e o que não nos faz bem, sobre quando e quanto precisamos comer. Mas, com a vida adulta, tendemos a abandonar essa naturalidade e adotamos a normalidade do comer (termo que vem do conceito de norma, regra). Algumas abordagens inovadoras no

ocidente, no entanto, tais como o Mindful Eating (comer consciente) e Intuitive Eating (comer intuitivo), vêm buscando resgatar a naturalidade da alimentação e a sabedoria interna que reside em cada um de nós. E nesse sentido, podemos entender que estas não são melhores e nem excludentes ao conhecimento

científico, mas que suas premissas e contribuições podem e devem dialogar com a sabedoria externa.


Um exemplo clássico desse caminhar junto é o convite dessas novas abordagens à reconexão com os sinais de fome e saciedade, incentivando o conhecer e o confiar nas sensações físicas que precedem e acontecem durante a alimentação, e em como a fome se manifesta em cada um, sem excluir as bases científicas fisiológicas que sustentam essa regulação . A proposta, nessas novas perspectivas, portanto, é

poder despertar a consciência para os sentidos e sensações do corpo e com base nisso fazer escolhas de modo a atender as necessidades fisiológicas, metabólicas e também as sociais e culturais. E isso requer abertura para autoconhecimento de forma curiosa, gentil e sem julgamentos.


Nesse cenário, cabe o destaque para o mindful eating que, enquanto braço do mindfulness, originou-se justamente do diálogo entre experiência e ciência , através do estudo da meditação e de técnicas de atenção plena (de origem budista) pelas universidades.


Ao entender que a experiência da alimentação é singular e única para cada indivíduo e, que o conhecimento científico está em constante aprimoramento, podemos então aliar essas duas perspectivas, unindo nossa sabedoria interna aos saberes externos. Isto, pode ser uma base sólida para definir a alimentação adequada para cada realidade de vida, que nada mais é do que o comer de forma

flexível e contextualizada dentro da perspectiva de cada indivíduo ou coletividade.


Nosso corpo tem muito a nos dizer. Que tal experimentar na sua vida pessoal e na atuação profissional esse ponto de interseção entre o pensar e o sentir na relação com a comida e o comer? Cultivar a sabedoria interna pode ser um caminho de empoderamento e construção da sua própria história na direção da autonomia alimentar. Podemos explorar junt@s um paradigma de cuidado nutricional para além

da mentalidade de dieta e construirmos um ponto de equilíbrio. Precisa de apoio para tanto? Pode contar com o suporte do portal E-Nutrirmente nesse sentido, pois sempre traremos conteúdos para reflexão e aprimoramento.


Bibliografia sugerida:


CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2006.


FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. 6ª ed. Rio de Janeiro: Forense

Universitária, 2006.


DEMETRIO, F. et al. A nutrição clínica ampliada e a humanização da relação

nutricionista-paciente: contribuições para reflexão. Rev. Nutr. v. 24 n. 5 Campinas

Set./Out. 2011.


FREITAS, M.C.S., FONTES, G.A.V., and OLIVEIRA, N, orgs. Escritas e narrativas

sobre alimentação e cultura [online]. Salvador: EDUFBA, 2008. 422 p. ISBN

978-85-232-0543-0. Disponível em SciELO Books < http://books.scielo.org/id/9q >.


REZENDE, F.A.C; PENAFORTE, F.R.O; MARTINS, P.C, orgs. Comida, corpo e

comportamento humano. São Paulo: IACI Editora, 2020.

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